População revoltada invade centros médicos, pacientes fogem e autoridades tentam conter crise sanitária em meio à desinformação

(Reprodução/X)

Uma série de ataques a centros de tratamento de ebola na República Democrática do Congo acendeu o alerta entre autoridades de saúde e organizações humanitárias que atuam no país africano. As agressões, registradas poucos dias após a Organização Mundial da Saúde declarar o surto como emergência de saúde pública de interesse internacional, têm sido alimentadas por rumores, medo e desconfiança da população em relação às equipes médicas.

Um dos episódios mais graves aconteceu em 21 de maio, quando moradores invadiram e incendiaram um centro de tratamento de ebola no leste do Congo. Imagens compartilhadas nas redes sociais mostraram chamas consumindo a estrutura e camas hospitalares destruídas. Outros dois ataques foram registrados no mesmo fim de semana em outra unidade médica dedicada ao atendimento de pacientes suspeitos da doença.

Durante os confrontos, funcionários e pacientes precisaram fugir às pressas. O médico Babou Rukengeza, responsável pela resposta ao ebola da organização Save the Children no Congo, afirmou à NPR News ter ficado chocado ao ver as imagens da destruição. Ainda assim, reconheceu que situações semelhantes já ocorreram em surtos anteriores da doença.

Segundo especialistas envolvidos nas operações de combate ao vírus, a principal dificuldade não é apenas conter a disseminação do ebola, mas também combater a desinformação. Muitos moradores acreditam em boatos de que a doença não existe ou de que organizações humanitárias estariam lucrando com a crise sanitária.

A presidente da filial suíça da Médicos Sem Fronteiras, Micaela Serafini, relembrou que ataques semelhantes ocorreram em 2019. Na época, parte da população acreditava que os pacientes levados aos centros de tratamento estavam sendo mortos pelas próprias equipes médicas. A elevada taxa de mortalidade do ebola ajudava a alimentar o pânico e a suspeita.


A Organização Mundial da Saúde estima que práticas funerárias co

Em um dos ataques recentes, moradores invadiram a clínica exigindo a liberação do corpo de um familiar para um enterro tradicional. Profissionais de saúde se recusaram a entregar o cadáver, alegando risco extremo de transmissão do vírus.

Para reduzir os riscos, os protocolos atuais determinam enterros controlados, realizados por equipes especializadas usando equipamentos de proteção individual, como máscaras e aventais. Os corpos são colocados em sacos lacrados enquanto parentes acompanham a cerimônia à distância.

Autoridades locais próximas ao epicentro do surto também limitaram funerais a no máximo 50 pessoas. Em alguns casos, agentes armados precisaram acompanhar enterros para evitar confrontos entre familiares revoltados e equipes de saúde.

Na tentativa de amenizar o sofrimento das famílias, organizações humanitárias passaram a adotar novas estratégias nos procedimentos funerários. Uma das mudanças foi a criação de sacos funerários com uma área transparente, permitindo que parentes possam ver o rosto da vítima antes do enterro.

A medida ajudou a reduzir o trauma vivido pelas famílias, especialmente porque muitas não conseguiam sequer reconhecer os corpos quando eram colocados em sacos totalmente fechados.

Outra estratégia envolve maior diálogo com os parentes desde a chegada do paciente à unidade médica. Equipes de saúde passaram a explicar antecipadamente quais protocolos serão adotados em caso de morte, incluindo os cuidados necessários durante o sepultamento.

Para os profissionais de saúde, a principal lição dos surtos anteriores é que combater o vírus depende não apenas de hospitais, vacinas e isolamento, mas também da construção de confiança entre médicos e comunidades locais.


do R7